Prefeitura de SP abre nova investigação sobre vazamento de dados sigilosos de 17 mil câmeras do Smart Sampa

  • 03/11/2026
(Foto: Reprodução)
Inauguração da central de monitoramento por câmeras do programa Smart Sampa, na rua XV de novembro, Centro de SP, em 04/07/2024 - Rovena Rosa/Agência Brasil A Prefeitura de São Paulo anunciou nesta terça-feira (3) a abertura de uma nova investigação sobre uma falha no sigilo de dados de 17 mil câmeras integradas ao programa de monitoramento Smart Sampa. É a segunda investigação aberta por problemas no sistema em menos de um mês (veja mais abaixo). A nova ocorrência foi denunciada pelo portal UOL. No mês passado, o veículo já havia publicado uma reportagem sobre o vazamento de senhas sigilosas que davam acesso a cerca de 58 mil câmeras municipais de monitoramento, que deveriam ter acesso restrito. Segundo a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, responsável pelo programa, um novo arquivo com senhas sigilosas foi encaminhado ilegalmente ao UOL nesta 2ª denúncia. A pasta informou que será aberta uma investigação para apurar o caso e responsabilizar os envolvidos. “O envio ao UOL da planilha com links de câmeras de empresas parceiras do Smart Sampa configura um novo ato criminoso de vazamento de dados sigilosos e confidenciais”, afirmou a administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB). MP avalia se abre inquérito para investigar vazamento de dados das câmeras do Smart sampa, em São Paulo Em nota, a prefeitura declarou que adotará medidas administrativas e legais para investigar o episódio. Também afirmou que não há sinais de ataque ao sistema. Segundo a reportagem do UOL, a nova falha permitiu, durante cinco dias, o acesso a imagens de câmeras instaladas em locais privados, como condomínios e residências de autoridades e políticos. Entre os locais citados estão imóveis ligados ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e aos ex-presidentes Michel Temer (MDB) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB). As 17 mil câmeras estavam hospedadas no servidor da empresa Monuv, que oferece serviços de armazenamento em nuvem para equipamentos de segurança na capital paulista. Além das câmeras próprias da prefeitura, o Smart Sampa integra equipamentos de empresas de vigilância parceiras conveniadas ao sistema municipal. A gestão Ricardo Nunes nega que os dados estivessem públicos na internet. Segundo a administração, a lista com links mencionada na reportagem nunca esteve disponível para acesso público. A prefeitura afirmou que o arquivo é uma planilha de Excel produzida durante uma análise de cibersegurança da plataforma Smart Sampa, realizada pela Companhia de Processamento de Dados do Município de São Paulo (Prodam). O prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o ex-secretário Orlando Morando inauguram o "prisômetro" do programa SmartSampa. Divulgação/Prefeitura de SP O trabalho começou em 20 de outubro, a pedido do prefeito, e foi apresentado nesta semana à Secretaria Municipal de Segurança Urbana para a adoção de medidas adicionais de proteção. A administração também declarou que as mais de 20 mil câmeras próprias do município não constavam na planilha encaminhada ao UOL e que o programa continua funcionando regularmente, sem evidências de ataques externos. Além da análise feita pela Prodam, o Consórcio Smart City SP, responsável pela operação do programa, contratou uma empresa independente para realizar avaliações de segurança, segundo a prefeitura. Sobre as câmeras de empresas privadas integradas ao Smart Sampa, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana afirmou que a infraestrutura tecnológica desses equipamentos permanece sob responsabilidade das próprias empresas. De acordo com a pasta, os parceiros privados são responsáveis pela administração, operação e segurança de seus sistemas e equipamentos. A integração ao programa municipal, segundo a prefeitura, não transfere ao município o controle dessas estruturas. 2ª falha em menos de 1 mês Smart Sampa: como funciona o sistema de câmeras de SP que teve senhas expostas Em 20 de outubro, a Prefeitura de São Paulo já tinha iniciado uma investigação sobre o vazamento de dados sigilosos do Smart Sampa, o sistema municipal de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial. A administração municipal atribui aquele episódio a um agente de segurança, que foi afastado do cargo, e nega que tenha ocorrido uma falha de segurança na plataforma. A notícia foi revelada pelo mesmo UOL. De acordo com a apuração, informações sigilosas do sistema ficaram expostas na internet por cerca de 11 meses, permitindo o acesso indevido a imagens de mais de 58 mil câmeras conectadas à plataforma, incluindo equipamentos instalados em ruas, escolas, creches e hospitais da capital paulista. A Prefeitura de São Paulo confirmou o vazamento, mas negou que tenha ocorrido uma falha de segurança no Smart Sampa. Segundo a gestão municipal, os dados foram divulgados ilegalmente por um agente que tinha acesso autorizado ao sistema. "O que houve foi um vazamento ilegal de dados por parte de um servidor entre os mais de 7.500 agentes de segurança. Ele já foi identificado, afastado e sua conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana", afirmou a prefeitura. O professor da área de segurança pública da FGV, Rafael Alcadipani, disse que é preciso fazer uma revisão dos controles de acesso e de uma análise detalhada de quem tem ou pode ter acesso a essas informações. Dados de câmeras da Smart Sampa vazam; prefeitura nega falha no sistema e acusa servidor Segundo ele, quando os controles de acesso não estão adequados, as informações que deveriam ser utilizadas para proteger o cidadão podem ser usadas para cometer crimes contra ele. "Um sequestrador poderia obter informações sobre a vítima que deseja sequestrar; um criminoso poderia saber onde estão as viaturas policiais no momento em que pretende cometer o crime; e alguém interessado em cometer um atentado contra uma autoridade poderia descobrir onde essa autoridade está", afirmou Alcadipani. O professor disse que o ideal é que poucas pessoas tenham acesso a essas informações e que o controle sobre quem está acessando seja feito 24 horas por dia, o tempo todo. Prefeitura diz que reforçou segurança após denúncia Central de monitoramento do Smart Sampa Reprodução/Prefeitura de São Paulo A Prefeitura de São Paulo informou que o repositório de dados disponibilizado ilegalmente na internet foi retirado do ar. A gestão municipal também afirmou que reforçou os mecanismos de proteção do Smart Sampa, com senhas exclusivas e autenticação em dois fatores, além da exigência de códigos enviados por SMS para a criação de novas senhas. A Prefeitura sustenta que não houve uso indevido da plataforma e afirma que o programa conta com fiscalização do Tribunal de Contas do Município (TCM), consultoria especializada em governança e privacidade de dados e envio semestral de relatórios de transparência ao Ministério Público. A gestão também afirma que o contrato prevê auditorias periódicas, testes de segurança e correção de eventuais vulnerabilidades. Sistema custa cerca de R$ 10 milhões por mês São Paulo assina contrato hoje com empresa de vigilância vencedora do Smart Sampa O Smart Sampa foi lançado em 2024 como uma das principais apostas da gestão Ricardo Nunes para a segurança pública da capital paulista. A central de monitoramento, inaugurada em julho daquele ano, funciona 24 horas por dia e recebe imagens de câmeras públicas e privadas integradas ao programa. O investimento mensal é de cerca de R$ 10 milhões. A tecnologia utiliza inteligência artificial para comparar imagens de pessoas captadas pelas câmeras com bases oficiais de procurados pela Justiça e desaparecidos. Também permite identificar veículos roubados, furtados ou com suspeita de clonagem de placas. Em junho deste ano, a prefeitura lançou o aplicativo Smart Sampa Cidadão, que permite aos moradores colaborar com a identificação de veículos com restrições por meio da câmera do próprio celular. Na mesma ocasião, Ricardo Nunes anunciou a contratação de um helicóptero equipado com tecnologia de monitoramento, ao custo estimado de R$ 2 milhões por mês. Segundo o balanço mais recente divulgado pela prefeitura, o Smart Sampa já contribuiu para a captura de 3.628 foragidos da Justiça e a localização de 284 pessoas desaparecidas. Estudo questionou eficácia do Smart Sampa Aposta de Nunes, câmeras do Smart Sampa não inibem furtos e roubos de celulares em Pinheiros; região lidera casos em SP Apesar dos resultados divulgados pela prefeitura, a eficácia do Smart Sampa na redução da criminalidade já foi questionada por pesquisadores. Um estudo do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), intitulado "Smart Sampa vigia, mas não protege", concluiu que a instalação do sistema não produziu redução estatisticamente significativa nas taxas de furtos, roubos e homicídios na capital paulista. A pesquisa analisou dados entre março de 2024 e abril de 2025, comparando os indicadores de São Paulo com os de outros municípios do estado que não haviam adotado o programa. O levantamento também não identificou aumento significativo na produtividade policial, medida pelo número de prisões em flagrante e pelo cumprimento de mandados judiciais. O estudo também revisita erros de identificação cometidos pelo sistema de reconhecimento facial nos primeiros meses de 2025. Entre os casos relatados: Um policial militar fardado confundido com foragido; Um jardineiro voluntário de uma UBS preso injustamente; Uma mulher grávida que teve parto prematuro após ser abordada pelo sistema. Segundo a pesquisa, os erros ocorreram por falhas nos algoritmos de reconhecimento facial, que tendem a errar mais com pessoas negras, e por bancos de dados desatualizados, com mandados que já deveriam ter sido retirados do sistema. O estudo também enfatiza que esses sistemas carregam potencial de viés racial. Uma pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), de 2018, mostrou que sistemas de reconhecimento facial erravam até 34% ao identificar mulheres negras, mas apenas 1% com homens brancos. A prefeitura contestou a metodologia e as conclusões do estudo. Segundo a gestão municipal, a pesquisa fez comparações inadequadas entre a capital e cidades com características sociais, econômicas e criminais diferentes. Em outra reportagem, o g1 mostrou que a região de Pinheiros, na Zona Oeste da capital, continuava registrando uma sequência de roubos e furtos de celulares, apesar da presença de milhares de câmeras integradas aos sistemas de monitoramento. Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) apontaram que 2.156 celulares foram roubados ou furtados na área atendida pela delegacia de Pinheiros no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a 24 aparelhos por dia. Programa inspirou proposta de Flávio Bolsonaro O Smart Sampa também se tornou referência para uma das principais propostas de segurança pública do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Durante a campanha eleitoral, o senador anunciou a intenção de criar o Smart Brasil, um sistema nacional de monitoramento por câmeras de segurança e reconhecimento facial, integrado a bancos de dados criminais. A proposta, anteriormente chamada de Muralha Brasileira, consta do plano de governo apresentado à Justiça Eleitoral e prevê a instalação de mais de 1 milhão de câmeras em parceria com estados e municípios. A proposta pretende ampliar para todo o país um modelo de monitoramento semelhante ao utilizado pela Prefeitura de São Paulo.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/11/03/prefeitura-de-sp-abre-nova-investigacao-sobre-vazamento-de-dados-sigilosos-de-17-mil-cameras-do-smart-sampa.ghtml


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