Mulher morta por PM: veja contradições entre depoimentos de agentes e imagens de câmera corporal
10/04/2026
(Foto: Reprodução) Mulher morta por PM: veja contradições entre depoimentos de agentes e imagens de câmera co
As imagens da câmera corporal e os depoimentos dos policiais militares envolvidos na ação, que terminou com a morte de Thawanna Salmázio em Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo em 3 de abril, apresentam contradições.
A confusão começou de madrugada, quando Thawanna e o marido, Luciano Gonçalvez dos Santos, estavam caminhando de mãos dadas e uma viatura da PM em patrulhamento passou pela rua.
Os policiais Yasmin Cursino Ferreira, que atirou e matou a vítima, e Weden Silva Soares, que dirigia a viatura e iniciou a discussão com o casal, foram afastados das atividades operacionais até o fim das investigações.
A TV Globo analisou as imagens e os depoimentos e identificou divergências desde o início da abordagem até o momento do disparo. Veja os principais pontos:
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Esbarrão no retrovisor: Segundo os policiais, o marido de Thawanna se desequilibrou e bateu o braço no retrovisor da viatura. As imagens mostram apenas um esbarrão, sem indicar desequilíbrio.
Motivo da abordagem: No boletim de ocorrência, os PMs afirmam que retornaram para verificar se estava tudo bem com o homem. Já o vídeo mostra o soldado Weden dando ré e questionando o casal: “a rua é lugar para você estar andando, ca*****?”.
Início da discussão: Os policiais dizem que o homem passou a gritar e reclamar, dando início ao desentendimento. As imagens indicam que Thawanna tentou argumentar primeiro — e só depois a discussão começou.
Suposta agressão: De acordo com os PMs, Thawanna partiu para cima da policial Yasmin e deu um tapa no rosto dela. Nas imagens, é possível ver a policial se aproximando e discutindo com a vítima, mas não há confirmação visual da agressão.
Momento do disparo: A versão dos policiais aponta que foi necessário usar a força para conter a agressão e impedir que Thawanna pegasse a arma da PM. No vídeo, no entanto, só é possível ouvir o disparo.
Mulher morre baleada pela PM.
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Como foi a morte de Thawanna
Thawanna e o marido, Luciano Gonçalvez dos Santos, estavam caminhando de mãos dadas, quando uma viatura da PM passou pela Rua Edimundo Audran.
A confusão começou quando Luciano esbarrou no retrovisor do carro. O policial Weden Silva Soares deu ré e iniciou uma discussão com o casal, com xingamentos. Em seguida, a soldado Yasmin Cursino Ferreira, que estava no banco do passageiro, desceu da viatura e também passou a discutir com Thawanna.
A situação escalou até que Yasmin atirou contra a mulher. Após cerca de 30 minutos, Thawanna foi socorrida ao Hospital Tiradentes, mas não resistiu aos ferimentos. A policial afirma que reagiu após ser atingida com um tapa no rosto (leia mais abaixo).
A ação foi registrada apenas pela câmera corporal de Weden, já que Yasmin não usava o equipamento. Questionada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) não explicou o motivo.
🔎 Quando a PM pode abordar alguém? A Polícia Militar só pode abordar uma pessoa quando há fundada suspeita de envolvimento em crime, baseada em elementos objetivos, como comportamento ou informações prévias. A ação deve seguir protocolos como identificação do agente, verbalização e uso proporcional da força, sendo o disparo de arma de fogo permitido apenas em situações de risco iminente à vida.
Sucessão de abusos
Para Adilson Paes de Souza, tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e pesquisador em segurança pública, o episódio é um “absurdo” e não segue nenhum protocolo da corporação.
Segundo ele, houve uma sequência de abusos que terminanam na morte de Thawanna, que, na avaliação dele, deveria ser investigada como homicídio qualificado por motivo fútil.
"É abuso desde o começo. O linguajar que [o policial] usa com a pessoa, o vídeo mostra. Quem começou agredindo foram os policiais militares. Assim que ele dá ré, já começa a discutir com o casal", afirma.
Os abusos continuaram mesmo após o disparo, segundo o pesquisador. Pelas imagens da câmera corporal, os agentes impediram que Luciano se aproximasse da esposa enquanto ela agonizava no chão.
O tenente-coronel reforça que uma pessoa só pode ser abordada por um agente quando há fundada suspeita. Contudo, segundo ele, essas regras não são seguidas na prática, em especial nas regiões periféricas, que recebem tratamento diferente das áreas nobres da cidade.
Em muitas situações, como Thawanna que estava apenas andando de mãos dadas com o marido, a abordagem é motivada apenas pela cor ou pelo local onde a pessoa vive.
“As normas da polícia não valem nada, absolutamente nada na vida real. [...] Nós caímos no padrão de atuação em territórios ditos conflagrados, onde há inimigos. Periferia, pretos ou pardos e pobres. Encaixou em um desses quesitos, ou nos três, é inimigo e merece sofrer toda e qualquer ação do Estado”, afirma.
Com 30 anos de experiência na área, o pesquisador diz nunca ter visto algo semelhante e compara o caso a episódios históricos de violência policial em São Paulo, o Massacre do Carandiru e os Crimes de Maio de 2026.
“Trabalhei no serviço ativo por 30 anos, tenho pesquisado violências de uma maneira mais consistente, desde 2009, nunca vi isso. Essa ocorrência para mim, do jeito como aconteceu, é pior do que Carandiru, do que Maio de 2006. Nessa ocorrência, o sistema mostrou exatamente como ele trabalha".
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Falhas na ação policial
Na avaliação de Cláudio Aparecido da Silva, ex-ouvidor das polícias de São Paulo, o que aconteceu também não pode ser chamado de abordagem. Na avaliação dele, foi uma desinteligência, ou seja, uma briga entre policiais e o casal.
Ele aponta uma série de falhas na atuação dos agentes, que começam ainda na forma como o patrulhamento foi realizado. Uma delas é o fato de a viatura estar com os sinalizadores desligados, mesmo sendo uma polícia ostensiva.
Segundo o ex-ouvidor, isso pode ter contribuído para o início da ocorrência, já que o casal não teria sido alertado da aproximação do carro. Ele também questiona a forma como a viatura foi conduzida, já que o patrulhamento deve ser feito em velocidade que permita observar o entorno da rua para evitar situações de risco.
Para o especialista, o uso de força letal também não se justifica. Ele lembra que o disparo de arma de fogo só deve ocorrer em situações de risco iminente à vida, o que não aconteceu no caso da Thawanna.
Por fim, Cláudio Silva aponta falha no uso das câmeras corporais, já que a soldado Yasmin não portava o equipamento.
“Não justifica. Além de uma falha dela de não estar com equipamento, tem uma falha do comando dela. O comando dela deveria ter percebido a falta do equipamento. Se o batalhão dela tá usando câmera, o que a faz não usar? Porque onde a câmera chegou, chegou para todo batalhão e para todo efetivo daquele batalhão", explica.
O que mostram as imagens
Vídeo de câmera corporal mostra que mulher morta por PM na Zona Leste de SP não encostou em retrovisor nem iniciou briga
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O que diz a SSP
"A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informa que todas as circunstâncias do caso são investigadas com prioridade pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e por meio de Inquérito Policial Militar (IPM), com acompanhamento das corregedorias das instituições envolvidas. Os dois policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais.
As imagens das câmeras corporais foram anexadas aos inquéritos e estão sob análise da autoridade policial, integrando o conjunto probatório do caso. Cabe ressaltar que todas as provas, incluindo, além das imagens, os laudos periciais e depoimentos, estão sendo analisadas com rigor."
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