Câmeras registram 'vida secreta' de micos-leões-pretos no alto da Mata Atlântica

  • 14/09/2026
(Foto: Reprodução)
Câmeras registram 'vida secreta' de micos-leões-pretos no alto da Mata Atlântica Durante o dia, um mico-leão-preto encontra abrigo em um espaço oco de árvore. Horas depois, quando o primata já deixou o local, o mesmo espaço pode ser ocupado por um marsupial. Sem pesquisadores por perto, câmeras instaladas nas árvores registraram esse “revezamento” e revelaram detalhes pouco conhecidos da vida de mamíferos no interior da Mata Atlântica paulista. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram O monitoramento, realizado no Pontal do Paranapanema (SP), permitiu acompanhar desde a rotina diária dos micos-leões-pretos (Leontopithecus chrysopygus) até o desenvolvimento de um filhote e de um indivíduo juvenil. Os equipamentos também mostraram como diferentes animais utilizam os mesmos recursos da floresta em horários distintos. As armadilhas fotográficas funcionaram continuamente e permitiram acompanhar os animais sem a presença de pesquisadores, situação especialmente importante para indivíduos não habituados ao contato humano. “As armadilhas fotográficas são ferramentas de monitoramento não-invasivo, então permitem acompanhar os animais de forma contínua, por longos períodos e sem a presença de um observador em campo, cuja presença poderia influenciar o comportamento dos animais”, explica Maria Carolina Manzano, pesquisadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto e integrante da equipe responsável pelo estudo. Segundo ela, a estratégia permitiu ir além da identificação dos locais frequentados pelos primatas. “Conseguimos, por exemplo, registrar um filhote em um dos grupos e acompanhar um juvenil ao longo de seu desenvolvimento até a fase subadulta. Além disso, como as câmeras funcionavam 24 horas por dia, conseguimos entender o que acontecia nos mesmos locais quando os micos não estavam ali”, afirma. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: RISCO AMBIENTAL: Geleiras que abastecem cidade no Peru encolhem e ampliam ameaça de lago glacial INSPIRAÇÃO: Médico mapeia a vida selvagem no próprio bairro e mobiliza vizinhos pela conservação BRIGA OU AMOR: Machos de cobra coral são flagrados em 'dança de combate' na Bahia Câmeras registram vida secreta de micos-leões-pretos no alto da Mata Atlântica Programa de Conservação do Mico-leão-preto/IPÊ Câmeras no alto da floresta O estudo avaliou a eficiência das chamadas câmeras traps, ou armadilhas fotográficas, para monitorar de forma não invasiva o mico-leão-preto e outros mamíferos arborícolas. Os pesquisadores trabalharam em duas áreas do Pontal do Paranapanema: a floresta contínua do Parque Estadual Morro do Diabo e um fragmento localizado na Fazenda San Maria. As áreas possuem características distintas de estrutura e disponibilidade de recursos, permitindo investigar como os animais utilizam elementos naturais, como ocos de árvores, e estruturas instaladas para conservação, como caixas-ninho e plataformas de alimentação. As câmeras foram colocadas entre 0,5 e 8 metros de altura. Equipadas com sensores infravermelhos de movimento, permaneceram ativas 24 horas por dia e produziram vídeos de 15 segundos. Embora armadilhas fotográficas sejam amplamente utilizadas no solo, o monitoramento nas árvores ainda é menos comum. Entre os motivos estão as dificuldades para instalar e manter equipamentos em locais elevados e a falta de métodos tão padronizados quanto os usados no chão da floresta. “Acredito que isso se deve principalmente aos desafios logísticos e técnicos de instalar e manter equipamentos no dossel e sub-bosque. Além disso, o monitoramento em estratos mais altos da vegetação ainda é recente e menos padronizado do que no solo, o que limita sua aplicação”, explica Maria Carolina. De acordo com a pesquisadora, direcionar as câmeras a recursos utilizados especificamente pelos micos mostrou-se eficiente para acompanhar a espécie. “Por isso, iniciativas como esta são importantes para demonstrar o potencial dessa abordagem e ampliar seu uso em estudos ecológicos e de conservação”, completa. Uma mesma ‘casa’ para diferentes animais Outros animais "revezam" as mesmas árvores - família de gambás é flagrada Programa de Conservação do Mico-leão-preto/IPÊ Um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi o uso compartilhado de estruturas da floresta. Ocos naturais usados como dormitórios pelos micos-leões-pretos também foram frequentados por macacos-prego, esquilos e marsupiais. “Ao todo, além do mico-leão-preto, registramos cinco outras espécies de mamíferos utilizando esses dormitórios naturais. Mais do que uma interação direta entre elas, o interessante foi perceber que existe uma espécie de compartilhamento do recurso: animais diferentes podem utilizar exatamente o mesmo oco, mas em momentos distintos”, explica Maria Carolina. As câmeras também registraram o uso das caixas-ninho — ocos artificiais instalados inicialmente para beneficiar o mico-leão-preto — por outras espécies. Entre as imagens obtidas está a de um gambá com filhotes deixando uma dessas estruturas. “Isso mostra que um único elemento da floresta pode ter importância para toda uma comunidade, e não apenas para a espécie que originalmente estávamos monitorando”, afirma a pesquisadora. Além do mico-leão-preto, foram registrados macaco-prego (Sapajus nigritus), catita-cinza (Marmosa paraguayana), gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris), cuíca-lanosa (Caluromys philander), esquilo-brasileiro ou caxinguelê (Guerlinguetus brasiliensis) e tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla). Segundo Gabriela Rezende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto, as estruturas instaladas para proteger a espécie acabaram beneficiando outros moradores da floresta. “Vimos que nossas ações de conservação, como a instalação de caixas-ninho – também conhecidas como ocos artificiais – para o mico-leão-preto, também beneficiam outros animais que dependem desses recursos para abrigo. Das sete espécies investigadas neste estudo, além do mico-leão-preto, outras três espécies foram observadas pelos vídeos interagindo com os ocos artificiais: o gambá-de-orelha-branca, o macaco-prego e a cuíca-lanosa”, afirma, em material enviado pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). Floresta funciona em turnos A iniciativa contribuirá para ampliar o conhecimento sobre a espécie ameaçada de extinção e fortalecer estratégias de conservação da biodiversidade na região João Vitor Medeiros Teixeira (IPÊ) As imagens também mostraram que o compartilhamento não ocorre necessariamente ao mesmo tempo. Mico-leão-preto, macaco-prego e esquilo têm atividade predominantemente diurna, enquanto os marsupiais registrados no estudo utilizam muitas dessas estruturas principalmente à noite. “É como se diferentes espécies compartilhassem o mesmo espaço, mas nem sempre ao mesmo tempo”, explica Maria Carolina. Segundo ela, a chamada partilha de nicho pode diminuir encontros diretos e possíveis conflitos entre espécies. “Um mesmo oco de árvore pode servir de recurso para várias espécies ao longo de 24 horas, e esse ‘revezamento’ pode diminuir encontros diretos e possíveis conflitos entre espécies, permitindo que um recurso importante seja compartilhado”, afirma. Isso não significa, porém, que os animais nunca coincidam. O estudo identificou diferentes níveis de sobreposição de horários de acordo com a espécie e o tipo de recurso. Mico-leão-preto e macaco-prego, por exemplo, tiveram alta sobreposição temporal nas plataformas de alimentação, embora os micos não utilizassem diretamente as plataformas para obter alimento. Nos dormitórios naturais, a coincidência de horários entre os dois primatas foi menor. “Isso mostra que a forma como as espécies compartilham a floresta é bastante complexa. Dependendo das espécies envolvidas, do tipo de recurso e de sua disponibilidade no fragmento, pode haver maior separação ou maior sobreposição nos períodos em que esses recursos são utilizados”, detalha Maria Carolina. A rotina do mico-leão-preto As câmeras também permitiram desenhar a rotina diária do mico-leão-preto. Os registros indicaram um pico principal de atividade entre 10h e 11h e outro, menos intenso, entre aproximadamente 16h e 18h. Depois do pôr do sol, a atividade cai de forma acentuada. Durante a noite, os animais costumam se proteger em cavidades naturais das árvores. Segundo Maria Carolina, os dados complementam informações obtidas por outros métodos de monitoramento. “Vocalmente a espécie parece ter picos de atividade pela manhã, até o meio-dia, comportamento possivelmente relacionado a defesa de território e coesão dos grupos sociais. Já em termos de locomoção, nossos estudos com acelerômetros mostraram um padrão semelhante ao das câmeras, com dois picos de atividade, de manhã e no entardecer. Durante a noite, a espécie se abriga dentro dos ocos naturais das árvores”, explica. Outros animais apresentaram rotinas diferentes. O macaco-prego permaneceu ativo principalmente entre 6h e 18h, enquanto o esquilo-brasileiro concentrou sua atividade entre a manhã e o meio-dia. Já catitas, cuícas e gambás tiveram atividade predominantemente noturna. O tamanduá-mirim apresentou comportamento mais flexível, com registros em diferentes períodos do dia e da noite. Segundo os pesquisadores, esse padrão pode representar uma adaptação importante à vida em ambientes fragmentados. Filhote acompanhado pelas câmeras Além do comportamento, as imagens forneceram informações sobre a própria estrutura dos grupos de mico-leão-preto. Um filhote registrado pelas câmeras provavelmente nasceu entre setembro e outubro de 2024. Outro indivíduo foi acompanhado desde a fase juvenil, em março, até atingir a fase subadulta em dezembro daquele ano. Para pesquisadores que trabalham com uma espécie ameaçada, esse tipo de informação vai além da simples confirmação de que existem micos em determinada área. “Não basta saber que os animais estão presentes em uma área, mas também entender se os grupos continuam se reproduzindo, se os filhotes sobrevivem e se os jovens permanecem na população”, explica Maria Carolina. Segundo ela, reprodução e sobrevivência dos jovens ajudam a indicar a condição de populações pequenas e isoladas. “Essas informações funcionam como indicadores da saúde e da persistência dessas populações e são importantes em grupos pequenos e isolados, especialmente quando falamos de uma espécie ameaçada como o mico-leão-preto”, acrescenta. Fragmentos ainda sustentam micos, mas não garantem futuro Os registros mostram que fragmentos de Mata Atlântica do Pontal do Paranapanema ainda sustentam grupos capazes de utilizar recursos naturais, manter organização social e se reproduzir. Isso, porém, não significa que essas áreas estejam protegidas de ameaças no longo prazo. “Algumas dessas populações têm características genéticas únicas e são fundamentais para a conservação da espécie como um todo. Mas a presença dos animais não significa que esses fragmentos sejam suficientes ou estejam seguros no longo prazo”, alerta Maria Carolina. A perda e principalmente a fragmentação do habitat continuam entre as principais ameaças ao mico-leão-preto. Hoje, parte das populações permanece isolada em remanescentes de floresta, especialmente no Pontal do Paranapanema. Nesse cenário, determinados elementos da paisagem, como árvores antigas com cavidades adequadas para abrigo, podem se tornar escassos. “Nossos resultados também mostram que conservar uma floresta não significa apenas manter determinada quantidade de hectares, mas olhar para a quantidade e qualidade dos recursos importantes para as espécies”, afirma a pesquisadora. É justamente aí que as câmeras podem ajudar diretamente nas decisões de conservação. Os registros permitem verificar se grupos continuam se reproduzindo, acompanhar a sobrevivência dos filhotes, identificar quais estruturas são utilizadas e apontar recursos importantes não apenas para os micos, mas para toda a comunidade de mamíferos arborícolas. As informações podem orientar desde a restauração e conexão de áreas de floresta até a instalação de caixas-ninho em ambientes jovens, onde árvores grandes e cavidades naturais ainda são escassas. “Ou seja, além de produzir conhecimento sobre a espécie, o monitoramento gera informações que podem ser incorporadas diretamente às decisões de conservação”, conclui Maria Carolina. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/09/14/cameras-registram-vida-secreta-de-micos-leoes-pretos-no-alto-da-mata-atlantica.ghtml


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