Acidente da Voepass: dois anos depois, famílias de vítimas ainda lutam por justiça

  • 09/08/2026
(Foto: Reprodução)
A saudade não diminui com o tempo. Há dois anos, familiares e amigos convivem com a dor e a busca por respostas e Justiça para as 62 vítimas do voo 2283 da Voepass, que caiu em Vinhedo (SP) em 9 de agosto de 2024. Adriana Ibba, mãe de Liz, de 3 anos, a vítima mais jovem da tragédia, define como "estranha" a percepção da passagem do tempo desde a notícia da queda. "Parece que foi ontem, porque está tudo ainda tão latente que não parece que se passaram dois anos", diz. Vice-presidente da associação dos familiares das vítimas, Adriana afirma que a falta da filha, a sua "melhor amiga", é uma dor diária. É também dela que vem a força para continuar a luta por Justiça. "Ela estaria fazendo 6 anos. Imagina só como ela não estaria? Mais falante do que já era, mais independente, em plena descoberta. A gente sempre se falava: 'Melhores amigas para sempre, né, mamãe?'. Então, realmente é difícil seguir sem a minha melhor amiga. Mas eu estou aqui firme por ela, e ela é minha força", conta. A conclusão da Polícia Federal (PF) é de que a queda do avião não foi resultado de um erro isolado, mas do acúmulo de falhas e omissões envolvendo profissionais de diferentes áreas da empresa. Ao todo, 16 funcionários, ex-funcionários e dirigentes foram indiciados para responder criminalmente. "Eles sabiam. Eles escolheram fingir fazer manutenção. Olha a gravidade disso. Isso é tão surreal. Parece um filme de terror. Então, realmente, eu espero de todo coração que esse pessoal pague e que vá preso", afirma Adriana. Acidente Voepass: quem são os indiciados pelo desastre aéreo com 62 mortos Ela reforça que a busca por Justiça não é apenas pela filha. "Ela não estava sozinha no avião. Eu falo por todos os familiares que estavam ali, porque não são só 62 vidas, é muito mais. Então hoje a luta é essa, e nós vamos adiante até o fim". Em nota, a Voepass diz compreender que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e "aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente" - leia a nota na íntegra abaixo. LEIA TAMBÉM De pilotos ao dono da Voepass: entenda cadeia de responsabilidades que levou PF a indiciar 16 pessoas por queda de avião Da denúncia ao julgamento: os próximos passos após PF indiciar 16 por queda de avião da Voepass Ex-piloto que fez 40 alertas à Voepass antes de tragédia com 62 mortos virou peça-chave da PF Acidente da Voepass: inspetor da Anac presenciou falha em sistema de degelo em voo 11 meses antes da queda Presidente da Anac diz que agência vai investigar apontamentos da PF sobre fiscalização da Voepass Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 Nelson Almeida/AFP Dois anos da tragédia Ao g1, Adriana Ibba relembrou os sentimentos que marcaram cada etapa da tragédia, desde a notícia da queda e a dolorosa liberação do corpo da filha até a espera pelos laudos técnicos e a conclusão do inquérito policial. Veja abaixo: A notícia da queda: Adriana lembra que a primeira reação foi de incredulidade. "A sensação é de que não fosse verdade. A sensação é de que o avião que a minha filha estava não era aquele". Ela conta que correu para o aeroporto e aguardou por horas a divulgação da lista de passageiros. A confirmação da tragédia: Após cerca de cinco horas de espera, veio a confirmação com o nome da filha na lista dos passageiros. "Até esse momento, você fica assim: 'meu Deus, me diz que é mentira isso, me diz que é um pesadelo o que você está tendo'". A liberação do corpo: A vice-presidente da associação dos familiares descreve os dias seguintes como um período de dor e burocracia. "O reconhecimento do corpinho da Liz levou quase uma semana" e, depois disso, foi preciso lidar com certidão de óbito, velório e retorno para Cascavel. A busca por informações: Ainda em meio ao luto, ela começou a buscar respostas sobre o acidente. "Eu sou jornalista, eu vivi desde sempre fazendo questionamentos e perguntas. E, de repente, essas perguntas que eu precisava fazer eram sobre a minha filha." O primeiro relatório do Cenipa: Adriana considera que a apresentação preliminar feita aos familiares, cerca de um mês após a tragédia, foi importante para dar um direcionamento. "Deu um norte para nós." A suspensão dos voos da Voepass pela Anac: Na avaliação dela, a medida adotada meses após a tragédia reforçou os questionamentos sobre a fiscalização da companhia. "Quando a gente entra numa aeronave, tem bem grande o certificado da Anac" e "não é possível que uma agência que existe para regulamentar, que existe para fiscalizar, não tenha feito". Espera pelo relatório final do Cenipa: O período até a conclusão das investigações técnicas foi marcado pela angústia. "A gente esperou quase um ano depois para ter o relatório final. E essa espera, ela é muito dolorida", diz Adriana. Quase dois anos pelo desfecho das apurações: Adriana afirma que os familiares acompanharam de perto os trabalhos das autoridades. "Eu e todo mundo da diretoria, a gente ficou dois anos indo até Campinas, tentando acompanhar". A conclusão do inquérito da PF: Para Adriana, o resultado era um dos momentos mais aguardados desde a tragédia. "Existe uma expectativa muito grande" e, agora, "o caminho é para que esses 16 indiciados sejam culpados e cumpram suas penas". Adriana Ibba, mãe de Liz de 3 anos, diz que recebe indiciamento da PF com 'sentimento de vitória' Reprodução/EPTV Cadeia de responsabilidades O delegado-chefe da PF em Campinas (SP), André Almeida de Azevedo Ribeiro, afirmou que a apuração da queda do voo 2283 identificou uma cadeia de responsabilidades, que vai de pilotos e mecânicos a despachantes de voo, diretores e o dono da Voepass. Ao todo, 16 funcionários, ex-funcionários e dirigentes foram indiciados por atentado contra a segurança do transporte aéreo, sinistro aéreo com resultado morte e falsidade ideológica. Segundo a investigação, a aeronave apresentava falhas recorrentes no sistema de degelo, equipamento essencial para operações em condições de formação de gelo, como a encontrada na rota entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP) no dia 9 de agosto de 2024. O problema era conhecido dentro da empresa, já havia sido alvo de apontamentos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e, de acordo com a PF, foi sucessivamente ignorado ou omitido em registros obrigatórios de manutenção. Voepass: entenda cadeia de responsabilidades que levou PF a indiciar 16 pessoas Para a PF, a tragédia foi consequência do enfraquecimento sucessivo das barreiras que deveriam garantir a segurança da operação aérea. A conclusão dos investigadores é que a aeronave foi mantida em serviço mesmo diante de falhas conhecidas, foi despachada para uma rota com previsão de gelo severo e continuou operando sem que problemas críticos fossem formalmente registrados e corrigidos. A soma dessas decisões, segundo o inquérito, criou as condições que culminaram na perda de controle do ATR 72 e na morte das 62 pessoas a bordo. Polícia Federal apresenta conclusão da investigação sobre queda de avião da Voepass em Vinhedo, SP Gabriella Ramos/g1 O que diz a Voepass A VOEPASS informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional. Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional. A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função. Desde o início das investigações, a VOEPASS colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente. A VOEPASS reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região p

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/08/09/acidente-da-voepass-dois-anos-depois-familias-de-vitimas-ainda-lutam-por-justica.ghtml


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